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May
Exorcizando a Bolívia
Fábulas bolivianas
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Quinta-feira eu estava com sempre sentada na cantina da faculdade e jogando conversa fora. Minha amiga me pergunta como vão as coisas, e eu dou a minha resposta-padrão: “Nada maravilhoso, mas pelo menos tá bem melhor do que era na Bolívia.”. Eu não costumo falar dos 3 anos que morei lá, até mesmo porque não há do que se falar. Hoje de manhã (depois de mais uma noite em claro), eu percebi que não é bem assim. Na verdade, há muito o que se falar, mas eu reprimi a maioria das minhas lembranças da época que eu morava lá (de 97 até 2000). Sabe quando você acorda de um pesadelo e se sente aliviada, pois aquilo não aconteceu de verdade? É assim que eu costumo encarar esse período que passei lá. Passou, já aconteceu e não volta mais graças a Deus. É uma lembrança ruim, que só serve como um parâmetro ruim: as coisas estão feias, mas nada comparado à época que eu morei lá.

Óbvio que há lembranças boas, mas pelo sim pelo não, eu resolvi que apagaria tudo. E hoje muitas das minhas memórias voltaram como uma torrente. Durante a madrugada, não sei porque cargas d’água senti vontade de procurar algo sobre o El Salao, um balneário próximo à minha casa que eu freqüentava bastante. Achei um site que, imagino, é sobre turismo (como tudo o que trata dessa região). Na verdade, enquanto eu lia o texto (em inglês), eu passava mal de tanto rir. Alguns trechos:

Por que alguém viria tão longe? Não há missões jesuítas, nem vilas bucólicas ou paisagens maravilhosas. De fato, o lugar é bem feio. (…) Se o seu carro foi roubado, olhe aqui primeiro. Se perguntando de onde vieram aqueles remédios grosseiros? Há uma grande probabilidade daquele farmacêutico golpista tê-los comprado aqui. Aquela pedra preciosa a preço de banana? Deve ter sido feita aqui. Eletrônicos com instruções em coreano apenas? Certeza que você acha aqui. Acho que você entendeu. (…) Para ser justo, melhorou bastante desde a época em que era carinhosamente conhecida como “sovaco do mundo”, mas também não é nem de longe bonita.

Pantanal - Puerto Suarez

E é assim que o tal site descreve Puerto Suarez, cidade onde morei durante um ano e meio. Na verdade eu morava numa chácara ligeiramente afastada da cidade, em frente ao aeroporto. Fiz questão de abrir o Google Earth e procurar o lugar exato. E não é que eu achei? No alto à esquerda está o aeroporto. Em baixo, à direita, a chácara onde eu morava. E como você podem reparar, não tem nada por perto. É um lugar horroroso, no meio do nada. O balneário citado no início do post era uma das poucas distrações que tínhamos, e ainda assim era uma boa caminhada até chegar no lugar.

Depois do meio de 98, nos mudamos pra outra cidadezinha, dessa vez mais próxima à fronteira com o Brasil. Chamava-se Puerto Quijarro, e como você pode perceber, criatividade não era bem o forte dos bolivianos. Era bem melhor morar lá, porque morávamos na cidade propriamente dita. Não que aquele muquifo seja bem uma cidade. Íamos na escola de manhã (estudávamos no Brasil), e à tarde passeávamos pela Zona Franca ou então íamos no fliperama. Sim, Puerto Quijarro é sede da Zona Fraca de Puerto Aguirre (tome criatividade). Pra vocês terem uma idéia, era como um Paraguai em miniatura. Tinha tudo quanto era tipo de porcaria, eletrônicos, guloseimas, perfumes… Essas coisas que você encomenda pra um parente que vai ao Paraguai.

A casa onde morávamos era bem melhor, muito bonita e dotada de uma gigantesca caixa d’água. Isso porque durante a maior parte do tempo faltava água em Puerto Quijarro, e mesmo quando havia água, era bem suspeita. Ficamos doentes mais de uma vez por ter bebido água da torneira de lá. Imagino que isso tenha algo a ver com o lugar onde era captada a água, a baía da laguna Cáceres. O esgoto era despejado logo ao lado e não, não tinha estação de tratamento.

As histórias do período em que morei lá são muitas, mas eu já escrevi demais. Digamos que eu não sou a pessoa mais indicada pra te convencer a visitar a Bolívia. Depois que me mudei pra Corumbá (o lado brasileiro da fronteira), eu simplesmente me sentia agradecida de ouvir as pessoas falando português. Sei que muitas vezes eu me pego reclamando do Brasil, mas a verdade é que não há país como o nosso.

sig




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