Começou de forma muito inocente. Eu devia ter uns 10 anos, era muito jovem e inexperiente. Foi na casa de uma amiga. Ela disse que tinha uma novidade. Outras meninas estavam lá, loucas pra experimentar a tal novidade. Quando ela me estendeu aquele rolinho de papel, eu sabia que não poderia mais voltar atrás.
- Vai fundo, Mariana! - foram as palavras dela.
E eu fui. Ah, eu fui… Peguei o rolinho, joguei na água fervente e observei a cor que dele se desprendia. Azul-marinho. Depois coei e fiquei um tempo com o cabelo imerso na água azul. Como que por mágica, meus cabelos loiros tinham desaparecido: agora eram azuis! Fiquei verdadeiramente maravilhada. Por pouco tempo. Duas lavagens depois e lá estava o loiro de volta. Eu queria mais. Eu precisava de mais! O papel crepom tinha sido só o começo do vício nefasto.
Aos 13 anos, minha mãe - vejam só, minha própria mãe! - achou que eu já tinha idade pra mudar de verdade. Não totalmente, claro. Fomos juntas ao supermercado (no caso, o Tocale de Puerto Suarez) e escolhemos juntas o xampu tonalizante da Wellaton na cor loiro mel. Só pra “ressaltar” a cor original, que digamos assim, é a mesma. Mamãe pintou pra mim, e eu quase morri de ansiedade enquanto esperava os 20 minutos pro xampu agir. Quando finalmente lavei o cabelo, fiquei frustrada. Não vi nenhuma mudança.
Um tempo longe do vício não fez com que a vontade de mudar diminuísse. Bem pelo contrário. Aos 15 anos, eu já tinha me decidido. Eu seria ruiva, ponto. Mais uma ida ao supermercado e o escolhido foi xampu tonalizante na cor cobre dourado. Dessa vez eu mesma pintei, fazendo aquela zona no banheiro. Lavei os cabelos e tcharam! Agora eu era ruiva! As meninas da escola adoraram. Elas me invejavam. As respectivas mães não deixavam que elas mexessem nos cabelos virgens. Eu ria… Ah, se eu soubesse! Do cobre dourado, foi só ladeira abaixo. Meu cabelo teve todos os tons de vermelho possíveis e imagináveis. Numa época, cheguei a ficar conhecida pela infame alcunha de chambinho. Eu não ligava. O vício já havia me dominado.
Foi em 2002, aos 17 anos, que deu-se a maior merda. Com a tintura vermelha desbotada e pelo menos uns 3 dedos de raiz loira, me decidi a fazer luzes. Agora eu tinha um cabelo de 3 cores, absurdamente ressecado e parecia saída de algum enlatado americano com baixíssimo orçamento. “Castanho, agora eu quero castanho”, pensei, mais uma vez decidida. Comprei tintura castanha e depois de pintar, fiquei mais uma vez maravilhada. Agora meu cabelo tinha todo a mesma cor! Mas havia algo mais: meus olhos saltaram, em contraste com o cabelo escuro. Pareciam mais claros do que de fato eram. Então passou pela minha cabecinha loira a idéia mais genial que eu poderia ter: se a tintura castanha tinha feito isso, o que será que a preta não faria?




