Meu pai sempre foi a figura mais forte daqui de casa: sério, centrado, honesto. Sempre quis o melhor pra gente, e pra isso se esforçou muito na vida. Lembro que eu cheguei a fazer aulas de inglês, jazz, piano e informática. Tudo que meu pai queria é que nós fôssemos os melhores, e fazia o impossível pra isso. Durante algum tempo, cheguei a ter raiva das aulas de piano. A professora pegava no meu pé porque eu era uma aluna muito preguiçosa e dispersa, coisa que eu sou até hoje. Mas eu sentia que meu pai tinha muito orgulho quando me via tocar, e eu ficava feliz de ver que algo que eu fazia o agradava. Sempre fiz de tudo pra agradar meu pai, coisa muito complicada. Era eu quem sempre me interessava pelo trabalho dele, queria ir junto das fazendas, ajudar… Bom, ele não deixava, claro. Eu não era homem.
Conforme eu cresci, a única ligação se reduziu ao piano. Eu não sabia se depois de tanto tempo meu pai ainda prestava atenção quando me via lá tocando, até que um dia ele veio até mim e me disse pra eu aprender a tocar as músicas inteiras. Claro, preguiçosa como sou, sempre começava as músicas e nunca terminava de aprender. Em 2001, meu pai ficou doente. Ele achava que era algum tipo de infecção, visto que tinha comido um picolé muito suspeito na fronteira. Ele precisava ficar de cama, e não conseguia nem comer e nem ir ao banheiro. Também nessa época comecei a ter alguns atritos com a minha família por causa de um namoro. Lembro de uma vez que minha mãe começou a discutir comigo no carro, e disse pra eu pensar na doença do meu pai. Eu, rápida, retruquei:
- Ai, calma mãe! Não é nenhum câncer não!
Pois é, eu disse com essas exatas palavras. Só que infelizmente eu estava errada, o diagnóstico era câncer no intestino. E só descobri porque meu irmão ouviu uma conversa da minha mãe com uma prima e veio me contar. Minha mãe não queria dizer nada pra gente.
Quando passei no vestibular pela primeira vez, em dezembro de 2001, eu tinha recém-completado os 17 anos. Lógico que meu pai quase estourou de orgulho, ao ver a filha mais velha, uma ótima aluna, entrar cedo na faculdade de engenharia. Era óbvio que eu não queria fazer engenharia, mas não me cabe discutir aqui os motivos que me levaram a entrar nessa faculdade. Fora meus novos amigos, a única coisa realmente boa da faculdade (na minha opinião) era a sala do piano. Lá eu podia treinar com um piano de verdade, o que me deu ânimo pra terminar de aprender todas as músicas que eu tinha começado. Uma coisa pra animar meu pai, que estava se tratando e indo muito bem.
Em 2002, depois de uma cirurgia complicada, meu pai ficou curado do câncer. Surpresa pros médicos, pois eu tinha certeza que ninguém esperava que ele vivesse. O que o curou não foram os remédios, e sim a atitude dele diante da doença: não parou de trabalhar e sempre acreditou na cura. Era um exemplo inclusive para os pacientes que ficavam na mesma ala que ele. Mas em 2003, um Raio X revelou alguns nódulos no pulmão. Câncer de novo. Meu pai recomeçou então o tratamento, com a mesma atitude que havia tido da primeira vez. Mas pra isso, ele tinha que ficar em Campo Grande, a capital do MS.
Em julho de 2003, vim passar as férias em Corumbá, onde a minha família morava. Como a faculdade era em Minas Gerais, a viagem era bem longa: eu passava mais de 30 horas dentro de um ônibus. Como o ônibus parava na garagem de Campo Grande pra reabastecer, meu pai disse que me encontraria lá pra me entregar uma peça de uma máquina de esteira que eu deveria levar pra Corumbá. Quando o ônibus parou na garagem, meu pai já estava lá me esperando junto com um amigo que havia dado carona a ele. Tomei um susto, nunca tinha visto meu pai daquele jeito: envelhecido, cansado, cabelos brancos, mancando. Ele me abraçou e falou sem parar pro amigo dele que eu era a filha que se tornaria a futura engenheira da família. Achei estranho, porque até então meu pai nunca tinha me abraçado daquele jeito e nunca tinha falado bem de mim pra alguém na minha frente. Pedi pra ele se acalmar, e disse:
- Calma pai! Você volta pra casa no seu aniversário né? Então.
Ele não respondeu e me abraçou durante mais algum tempo. Me entregou a peça e entrei no ônibus. Isso aconteceu dia 12 de julho, faltando 2 dias pro aniversário dele, e achei que ele iria pra Corumbá passar com a família. Só que não foi. Estava curado do câncer no pulmão, mas começou a sentir dores na perna. Ficou em Campo Grande pra se tratar. Menos de uma semana depois, as dores pioraram e descobriram que era câncer nos ossos. Já havia se espalhado e não havia nada mais a fazer, só esperar. Eu não tinha idéia da gravidade da situação, visto que ficava esperando meu pai voltar pra casa. Eu queria mostrar pra ele que finalmente tinha aprendido a tocar as músicas inteiras, e sabia que ele ficaria orgulhoso. Ficamos sozinhos em casa eu e meus dois irmãos, já que minha mãe estava em Campo Grande pra acompanhar o tratamento, então eu dormia junto com meus irmãos no quarto dos meus pais. Uma noite, na madrugada do dia 25 de julho, eu acordei chorando. Ninguém tinha me contado nada, mas eu sabia que meu pai estava morrendo. Ele morreu dia 28 de julho, duas semanas depois do aniversário de 46 anos. Aquela vez que ele me encontrou na garagem em Campo Grande foi a última vez em que eu o vi vivo, e nada me tira da cabeça que ele sabia que ia morrer.
Hoje, 3 anos depois de tudo isso, é aniversário do meu pai de novo. 49 anos, quase 50. Eu não acredito em comemorar aniversários de falecimento, pois eles não trazem nenhuma alegria. E por que também contar aniversário de falecimento se parece que ele está mais vivo do que nunca? Das coisas que me arrependo, eu posso dizer que me arrependo profundamente de não ter imposto que eu queria fazer veterinária. Precisei esperar meu pai morrer pra ter coragem de largar a faculdade de engenharia. Mas eu sei que de uma forma ou de outra, ele sente orgulho de mim sim. Só não pode me dizer diretamente.
Pai, você sempre foi um exemplo, e não só pra mim. Eu sinto muita saudade de você, mas sei que um dia a gente ainda se encontra de novo. E sei também que nunca pude dizer que te amava porque não tinha coragem e não saberia como o senhor reagiria. Mas o senhor foi e ainda é um pai maravilhoso, e eu amo você.
Feliz aniversário!




