Veremos que meu dia passa de um drama a um filme de amor com direito a por do sol na praia e CHORAM AS ROSAS até um filme de terror. Duvida? Vai lendo.
Estou estagiando na Festa do Peão da minha cidade, Bragança Paulista. Pra quem não sabe do que se trata, é uma das maiores festas do tipo do Brasil. SRSLY! A quinta maior, segundo o locutor-fofuxo-que-cumprimentou-a-gente. Vamos devagar que senão me embolo e ninguém merece meu fluxo desconexo de pensamentos.
Pela manhã, tomo meu doce café (doce em todos os sentidos que vocês puderem imaginar) e pego carona com a amiga. Atentem para ela, pois sua presença é fundamental pra certos acontecimentos mais adiante. O estágio começa pela manhã, mas há turnos a tarde e também a noite. Domingo, resolvemos estagiar só de noite porque né, idade chegando e as duas vovós estavam com dores nas costas.
Daí eu devo abrir um parênteses e explicar: o estágio é pesado e somos pau pra toda obra. Nosso serviço inclui desde conferir GTAs (as Guias de Trânsito Animal, sem elas o animal não pode entrar na festa) até mesmo lavar carneiros. Isso que você acabou de ler. L-A-V-A-R C-A-R-N-E-I-R-O-S. É quase como lavar um cobertor, só que um cobertor vivo que caga no seu pé. Sério. Fecha parênteses.
Então, como estágiárias de veterinária, temos acesso ao brete. E brete, segundo a excelentíssima wikipédia é:
Um brete (em inglês: cattle crush, squeeze chute ou stock) é um compartimento ou jaula para reter bovinos, cavalos ou outros tipos de gado com segurança enquanto estes são examinados, marcados ou recebem tratamento veterinário.
Vale lembrar que de noite, o que acontece na festa é o rodeio. Então, o que estava contido no brete eram touros de rodeio. O brete é uma estrutura construída na frente do palco, que se abre pra uma arena. Se você não entendeu, eu desenho.

Eu sou aquele pontinho rosa ali. Pra entrar na área do brete, entrávamos por trás do palco e passávamos no meio da arena. Mas só podíamos fazer esse trajeto quando não havia nenhum touro solto na arena. Emocionante? Eu te conto o que é emocionante. Ficávamos a centímetros dos touros de rodeio. Dizer que o animal estava contido ali nos bretes não é totalmente verdade. Estamos falando de touros de rodeio, alguns pesando mais de uma tonelada. Quando algum deles pulava lá dentro, a estrutura inteira do brete chacoalhava. Pensei que a qualquer momento eu ia virar panqueca. Daí posso até ouvir os miguxos-veggies-pró-direitos-dos-animais dizendo que seria bem feito pra mim, já que eu havia me metido a trabalhar num rodeio. Daí vou abrir outro parênteses pra explicar algumas coisinhas.
Tudo o que você não queria saber sobre rodeio mas vou explicar mesmo assim
1) Eles amarram os testículos do touro?
Não, não amarram. O sedém, aquela corda que dizem que serve pra isso, não passa nem perto dos testículos.
2) Mas ela machuca o animal?
Não, não machuca. A corda comprime a região do vazio do animal. Incomoda sim, mas não machuca.
3) Mas então por que o touro pula?
O touro pula porque tem um peão montado nele. Pode reparar que o touro para de pular quando o peão cai. Essa característica é genética e não é todo animal que a possui.
4) Os touros apanham?
Não, não apanham. Porque os veterinários do evento não permitem. Há um motivo bem simples pra isso, que vai além de bem estar animal: maus-tratos podem resultar no embargo da festa. Não falo só do rodeio, falo dos shows e da festa toda em si.
Muitas vezes o tropeiro que acompanha o peão é ignorante e bate no touro. Nosso trabalho lá dentro é evitar que isso aconteça. Aconteceu algo assim enquanto eu estava dentro do brete, por isso posso falar. Quando restam poucos animais para entrarem no brete, fica mais difícil de conduzi-los. Por isso, um dos tropeiros começou a bater nos animais, pra fazer com que eles entrassem nos bretes. Uma das estagiárias viu e falou com o tropeiro pra que ele parasse. A resposta que ela ouviu:
- Vocês veterinários não sabem o que a gente passa pra colocar esses animais aí pra dentro!
Acontece que a Polícia Ambiental viu a confusão e entrou no brete. Peitar uma estagiária sozinha é fácil. Com um policial de cada lado, fica mais difícil, não é? O veterinário do evento chegou em seguida e ordenou que o tropeiro machão fosse retirado da área. No final das contas, os animais que não queriam entrar no brete foram deixados de lado. E o dia foi salvo pelos super veterinários.
Apesar de tudo, quero deixar claro que não gosto de rodeios e não sou a favor do dito “esporte”. Mas também não gosto de informações incorretas propagadas a respeito da minha profissão. Acho que se eu tenho esse espaço, é meu dever esclarecer o que posso a respeito. :)
Amanhã eu volto com a segunda parte. Ou não volto. O que sei é que já escrevi pra caramba e ainda nem cheguei no show.

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