Um dia em minha vida: edição “Festa do Peão” – Parte II

Categorias: Desventuras, Reala 2,627 hits
05/05/2010 13:26 1350 palavras 8 comentários

E aí, já leu a primeira parte do post? Então põe o chapéu, a bota e vem comigo.

Repare que no post anterior eu falei no plural. “Entrávamos”, “ficávamos”, “mugíamos”. OK, vocês entenderam. E não, ainda não virei vaca. É que eu estava com a minha amiga já citada anteriormente. Então, onde estávamos? Ah sim, na área do brete. Ficávamos ali fiscalizando pra ver se estava tudo certo com os animais, se os peões não usavam esporas pontudas e se não batiam nos touros. O veterinário fica o tempo todo passando de brete em brete, olhando cada um dos animais atentamente. Quando abrem a porteira e o touro sai pulando, voa merda pra tudo que é lado. Oh, claro, eu estava mesmo precisando de umas bolinhas verdes no meu jaleco branco. Some-se a isso que havia uns tiozinhos no palco fumando cigarro de palha e jogando as cinzas na gente (pois o palco era mais alto que os bretes). Ou seja: merda de touro + cinza de cigarro de palha = aroma da roça. Muito bucólico.

Encerrado o rodeio, temos que sair da área dos bretes e ajudar no embarque dos animais. Na verdade, nossa ideia era continuar ali dentro pra ver o show do Bruno e Marrone que começaria em seguida. Mas né, estagiário faz o que mandam, não o que quer. Ficamos depois com medo de tentar entrar no brete de novo, imaginando que os seguranças chutariam nossas bundas. Podíamos assistir o show da arena, mas o pessoal da organização já havia aberto e o povão já tinha tomado conta. Explico: na hora do show (e depois de termos embarcado todos os touros no caminhão), a arena é aberta. Mas eu sinceramente não tinha mais saúde pra outro show no meio do povão. Já me bastavam as experiências horrendas dos shows anteriores. Oi, olha um parênteses chegando.

No show do Victor e Leo dois dias atrás, vi o show da arena com uma amiga e mais três amigas da mesma. Estar no meio do povão, num grupo só de mulheres é pedir pra merda acontecer. Mano não respeita. E um tipo me tirou pra dançar. Contra a minha vontade. E não soltava a minha mão. Só que a cena era tão bizarra que em vez de pedir pra ele me soltar eu só conseguia dar risada e gritar “SOCORRO!” pra minha amiga. Sob pena de apanhar, o tipo chapeludo me soltou. Olha, não foi o primeiro nem o último da noite. Então fica o alerta pra você, mulher que nunca foi pra nenhuma festa do peão: em lugares do tipo, o desespero rola solto. Protejam-se. Fecha parênteses.

Voltando. Agora queríamos voltar pra área do brete pra ver Bruno e Marrone de pertinho. É aí que entra um tipo muito sinistro nessa história, a quem chamarei pelo codinome “Bizarro”. O Bizarro é aluno do primeiro ano de veterinária, e isso é tudo que eu sei sobre ele. Acontece que ele fez amizade com os seguranças e colocou a gente dentro do brete de novo. Só que a gente não sabia que, como estagiárias de veterinária, temos acesso a qualquer lugar daquela festa. Então, a ajudinha do Bizarro havia sido totalmente desnecessária.

Assistimos o show todo com o Bizarro por perto, dançando e fazendo graça pra chamar nossa atenção. Na verdade, pra chamar a atenção da minha amiga, por quem ele parecia ter desenvolvido uma espécie de paixão fulminante. Azar o dele, porque ela só tinha olhos pro Bruno. Posso falar? Achei o Bruno meio nojentinho. E toda vez que ele olhava pra gente, fazia a cara mais engraçada do mundo, arregalando os olhos. Já o Marrone foi um fofo, fez muita graça e deu rosas vermelhas pra mim e pra minha amiga. Rosas, claro né? Porque afinal de contas…

Choram as rosas
Porque não quero estar aqui
Sem seu perfume
Porque já sei que te perdi
E entre outras coisas
Eu choro por ti…

Bruno e Marrone – Choram as rosas

Final do show, o Bizarro chega de novo na minha amiga.
- Você não me daria uma carona?
Minha amiga, que ficou feliz por ele ter colocado a gente pra dentro do brete de novo, concordou e perguntou pra onde.
- Pro motel X.
- Olha o respeito! Sou casada, tenho filho…
- Não, não é isso! É que eu moro ali perto…
Verdade, perto do dito motel tem um bairro mais afastado. E ela concordou em levar o Bizarro até lá. Discretamente ela vira e me pergunta:
- Mariana, você vem comigo né?
Óbvio que eu iria, nem que ela não tivesse pedido. Não conhecemos o cara direito, vai saber…

Fomos juntos até o estacionamento e entramos no carro. Eu e a amiga na frente. O Bizarro sentou atrás, ficando bem entre nós duas. Tipo, eu sentia o bafo dele na minha nuca.
- Seu carro é automático é?
- É sim.
- Então nem precisa fazer força.
- Onde você mora mesmo?
- Moro ali perto do motel X, numa clínica de reabilitação.
E se vocês acham que isso é ruim, imaginem que o pior ainda está por vir.

Pra chegar ao tal motel, saímos da cidade e pegamos a rodovia. E a partir do motel, pegamos uma estradinha menor, mas ainda asfaltada.
- São só mais 2,5km por essa estradinha. – dizia o Bizarro.
E tudo que víamos era que a estrada se estreitava e ficava cada vez mais escura. Num pedaço especialmente assustador, um carro apareceu atrás de nós. Segundo minha amiga, o pensamento que passava pela cabeça dela era o seguinte:
“Puta que pariu, fudeu! Caímos numa armadilha! E eu levei a Mari junto!”
Mas o carro saiu de trás e entrou num dos sítios que por lá haviam. Enquanto isso, o Bizarro continuava com sua conversa amistosa.
- Sabe, eu usava de tudo. Precisava fazer isso e andar armado pra me sentir mais homem. Hoje não preciso mais disso.
- Aham, muito legal. – era tudo que eu e minha amiga conseguíamos dizer.
Passados 2,5km, ainda não tínhamos chegado na tal clínica. Começamos a ficar com mais e mais medo.
- São só mais 2 km a partir daqui. – afirmava o bizarro.
Sim, isso era fantástico. Estava com minha amiga no carro com o Bizarro, ouvindo ele contar que costumava se drogar e andar armado enquanto sentia o bafo dele na minha nuca, andando por uma estradinha pequena e escura. Ótimo, vou morrer hoje. O Bizarro vai nos matar, nos estuprar, nos ressuscitar e nos matar de novo.
- Aqui, é aqui. Pode fazer a volta e me deixar aqui. Eu vou pular o portão.

Não moço, COMO ASSIM? Será que ele mora mesmo nessa clínica? Será que ele veio assaltar a clínica e isso vai nos transformar em cúmplices? Foda-se. O importante é que ele estava fora do carro e estávamos voltando pra cidade. Minha amiga tremia. Eu tremia. Experiências pra reavaliar toda a sua vida, quem curte? Nos outros dias, tentamos manter uma distância segura do Bizarro. Não que ele tenha entendido, pois achou que era nosso amigo. Mas conseguimos evitar a carona. Porque né, vai saber.

Cheguei em casa ainda sob o efeito da adrenalina, e o que foi que eu fiz? Liguei o computador e fui postar no twitter. Porque de nada vale tudo isso se eu não puder colocar no blog/tuitar a respeito, certo?








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