Se eu estou escrevendo, é porque eu sou birrenta. Estou acordada já a 24 horas e meu corpo todo dói. Bem, na madrugada de sábado pra domingo, eu tive uma experiência quase-religiosa. Na verdade eu quase levei aquela música “Segura na mão de Deus” a sério e fui pessoalmente cumprimentar o todo-poderoso. Vou contar tudo, prometo.
O que vocês acham mais fácil: nerds acordarem 3 da manhã ou nerds ficarem acordados direto até as 3 da manhã? Eu e meu namorado escolhemos a 2ª alternativa, já que ficar acordado até tarde é com a gente mesmo. Quero dizer, eu fiquei. Tinha tomado tanto café que tinha energia sufuciente pra alimentar uma pequena cidade por um dia inteirinho. Pequena nota: o café da minha sogra é muito bom, infinitamente melhor que o meu café queimado. Sim, eu tenho as manhas de queimar o café, outra hora eu conto.
Meu namorado estava de viagem marcada, o vôo sairia às 8 da manhã. Por se tratar de viagem internacional, o check-in começa 2 horas antes. E por se tratar de um japonês, ele calculou que se saísse 3:30 da manhã de Santos teria tempo suficiente pra chegar em Cumbica. Pequena nota: adoro esse senso de dever e responsabilidade. Quando crescer, quero ser igual a ele.
Pegamos o táxi 3:30 da manhã e eu fui com ele pra me despedir no aeroporto e depois ir pra rodoviária. Eu já devia saber que ia dar merda quando ouvi o taxista conversando sozinho enquanto subíamos a serra. Nada bom. Uma hora ele falou sozinho “NEBLINA!” tão alto que meu namorado, que até então estava cochilando no meu ombro, assustou e acordou. Eu só fiquei quietinha olhando pela janela, como sempre faço. Estava tão perdida em pensamentos que nem reparei que perdido mesmo estava o taxista. Onde diabos estávamos? O taxista estava nervoso e murmurava palavrões. Confesso, foi nessa hora que comecei a ficar com medo. Ele buzinou feito louco pra outro taxista e gritou pra ele pedindo informações. Ao que o outro taxista respondeu com a maior calma do mundo “Guarulhos? Você deveria ser preso, está indo pra Santo André!”.
Imediatamente, o taxista do barulho fez um retorno de qualquer jeito e foi dirigindo em braile (passando por cima de todos os olhos de gato que encontrava) até conseguir colocar o carro na direção certa. A partir daí, o que se seguiu foi a mais absurda e apavorante corrida de carro da qual já tive o desprazer de participar. Meu namorado ainda cochilava quando ele se perdeu pela primeira vez. E eu, que estava morta de sono enquanto subíamos a serra, agora estava acordadíssima. Ele quase bateu em três carros até chegar na Marginal Tietê. Não sei como foi possível ter errado a entrada da Marginal antes, visto que quem já andou em São Paulo sabe que, por mais que a cidade seja um caos, está sinalizada com placas ENORMES.
O percurso pela Marginal foi um pouco mais tranquilo. Até ele errar a entrada pra Guarulhos. Para num posto de gasolina, para em outro posto de gasolina… Resolve pedir informações pra um grupo de homens que estava num dos postos. Bêbados. Um deles se aproxima com uma das mãos nas costas e começa a perguntar de forma enrolada quando o taxista cobraria numa corrida até a Vila Madalena. Na minha cabecinha, ele estava armado e iria atirar na gente, nos matar, nos estuprar, queimar os corpos, nos estuprar novamente e finalmente nos desovar no Rio Tietê. Mas isso não era nada perto do que aconteceu a seguir.
Conseguindo informações com o pessoal (suuuuuuuuper confiável) do posto, ele se pôs a caminho novamente. Não sei qual parte de “segue a rua até o final” ele não entendeu. Mas fato é que ele conseguiu nos meter no meio de uma favela tremendamente medonha as 5 da manhã. Medo? Eu não conhecia essa palavra até hoje. Não satisfeito em nos enfiar naquele buraco, decide pedir informações aos manos locais. Olha, não me chamem de preconceituosa. Eu só não tenho as manhas de me enfiar no meio de uma favela de madrugada e ainda pedir informações buzinando feito louca. Não apenas uma, mas quatro vezes. Devo ter um santo muito forte, pois só cruzamos com pessoas muito boas e dispostas a ajudar. Quem não queria ser ajudado era o taxista doido, que teimava em ir pra direita quando indicavam a esquerda.
Depois da busca por informações, o taxista desandou a correr. Não que ele já não estivesse a mais de 100 por hora o tempo todo e passando a pelo menos 150 por hora nos quebra-molas. Foi nessa hora que se deu a minha experiência quase-religiosa. Eu penso que Deus, além de ter um senso de humor muito do estranho, age de formas misteriosas. Ele só pode ter colocado esse taxista no meu caminho pra renovar a minha fé. Digo isso porque eu não rezava com vontade desde a minha primeira comunhão, coisa de 15 anos atrás. Malemá eu lembrava o Pai Nosso. Eu estava a ponto de chorar quando, num quebra-molas, o taxista passa e faz a minha cabeça bater contra a cabeça do meu namorado. Ele corria feito um idiota pra compensar o tempo que tinha perdido por se enfiar em Santo André e por não saber ler placas. Estou com um galo na testa, filho da puta. Daí é que fiquei sentida mesmo. Só não comecei a chorar porque o puto estava com o vidro aberto e eu só conseguia pensar no frio que fazia e no vento que batia na gente.
Meu namorado só fazia me abraçar e esfregar a minha testa. Tadinho, morrendo de frio e tentando cuidar da manteigona derretida aqui. Depois de se perder pela caralhagentésima vez, finalmente conseguiu acertar a entrada do aeroporto. Mas também só porque meu namorado estava dando as coordenadas pra ele. Fantástico ter que ensinar um caminho que já havia sido combinado antecipadamente (minha sogra marca o taxi bem antes, pra não ter erro) pro taxista. Ainda se fosse um buraco onde o Judas perdeu as cuecas, mas não… Até a caipirona da roça aqui ficou revoltada quando ele perdeu a entrada do aeroporto, marcada por uma placa do tamanho de um contêiner.
“Desculpa qualquer coisa.”, foi o que ele disse ao fim da corrida. Meu namorado tremendo de frio, eu tremendo de medo… Da corrida e do taxista maluco que xingava e cismava de perguntar o caminho pros bêbados. Desculpa qualquer coisa? Oi tio, Google Maps? Oi tio, EXAME DE VISTA? Pois como taxista, você é um ótimo Stevie Wonder. E nem precisa cantar. Eu estava tão tensa que quando finalmente coloquei os pés no aeroporto, só conseguia rir da situação. É só o que resta mesmo.











